segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A ÚLTIMA TÁBUA DE SALVAÇÃO



O Tribunal Constitucional (TC) passou a ser para a esmagadora maioria dos portugueses a última tábua de salvação – mesmo para aqueles que não têm consciência disso – como que o último entrave à institucionalização de uma qualquer tirania fosse com que capa fosse. Como muito bem escreveu Batista Bastos no DN, na passada quarta-feira, sem a acção responsável do TC, “a ditadura já estaria aí, "reorganizada" em moldes "democráticos" e actualizada pelas circunstâncias europeias”. Mas há aqui um aspecto importante a ter em conta que é o papel a desempenhar pelo PS numa possível alteração da Constituição, tão desejada pela direita pura e dura, de forma a permitir legalizar todas as malfeitorias pretendidas pelo Governo Passos/Portas. Neste aspecto é bom estarmos prevenidos porque este PS não nos dá garantias nenhumas de ser um garante da Constituição, tendo em conta, a preferência que sistematicamente dá a alianças com a direita, como se tem visto neste pós-eleições autárquicas.
Com esta problemática como pano de fundo, achámos importante deixar aqui a transcrição de um interessante texto que Rui Tavares assina no Público de hoje.
O cerco vai apertando. É Pedro Passos Coelho que, a cada intervenção, responsabiliza o Tribunal Constitucional no caso de "o país falhar", ou seja, se ele falhar. São os seus correligionários que, em entrevistas, culpam a Constituição da República Portuguesa pelos entraves à austeridade sem entraves. É Durão Barroso que, em clara transgressão ao artigo 4.º do Tratado da União Europeia - dever de respeitar as constituições dos estados-membros, estando estas em conformidade com os valores do respeito pela dignidade humana, a democracia, a liberdade, a igualdade, o estado de direito e o respeito pelos direitos humanos, incluindo os das pessoas oriundas de minorias -, lança alertas para a necessidade de não haver mais surpresas vindas do Palácio Ratton. É o FMI pela voz da sua diretora Christine Lagarde, considerando o Constitucional português um "tribunal ativista" (pergunto-me por que não diz ela o mesmo do Tribunal Constitucional alemão, que praticamente parou todo o processo europeu com a sua decisão sobre o Tratado de Lisboa). E são, finalmente, todos os pedidores de consensos, do Largo do Caldas ao Palácio de Belém, que desejam amarrar o Partido Socialista a um acordo que desse a requerida maioria de dois terços necessária para passar um verniz constitucional por cima de novos cortes, a coberto da necessidade de entendimentos entre o "arco governativo".
Chegou aqui e parou. Analisemos esta curiosa expressão, o "arco governativo" ou "arco da governação", que só o génio político-jornalístico de Paulo Portas poderia ter inventado. Num regime parlamentarista, ela não deveria fazer sentido, pois "o arco da governação" é composto por todos os partidos com representação na Assembleia da República. Mas, na invenção de Paulo Portas, que se aproveitou da consabida incapacidade de uma parte da esquerda para se posicionar como parte da solução governativa, o "arco governativo" designa os partidos que Paulo Portas entende que deveriam governar o país. Ou seja: os dois grandes, e o partido de Paulo Portas.
Voltemos ao momento presente, em que a Constituição é claramente o alvo a abater pelo processo austeritário em curso. Há que reequilibrar a política portuguesa, e para isso é preciso opor a este processo um Arco Constitucional, ou Arco da Constituição, constituído pelos partidos e cidadãos que não estão dispostos a deixar que os valores democráticos, republicanos e de justiça social que constituem o quadro legal deste país sejam triturados sob pretexto do memorando com a troika.
Esse arco constitucional teria, em primeiro lugar, uma função defensiva, como lembrou há dias o ex-Presidente Jorge Sampaio: num estado de direito, é obrigação de todos os atores políticos defenderem a independência e integridade dos seus elementos principais.
Mas, não sendo a Constituição um mero repositório de princípios congelados a defender, um arco constitucional deveria também esforçar-se para criar as condições políticas para que se cumpram os desideratos da Constituição. Ou seja, não apenas defender (por exemplo) os princípios da universalidade e da igualdade, mas promovê-los.
E, para isso, seria necessário que o arco constitucional se tornasse uma realidade política ativa, capaz de mobilizar a maioria da população para não só defender, mas cumprir e fazer cumprir a nossa lei fundamental.

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