sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

ELES COMEM TUDO


O texto seguinte (*), que transcrevemos do Diário de Coimbra de ontem (12/2), constitui uma curta reflexão sobre o sistema ignóbil que tomou conta do planeta, em benefício de uma cada vez mais pequena minoria. Alguns exemplos do que actualmente se passa na Europa são mais do que reveladores de que os mandantes dessa minoria não olham a meios para submeterem (quase) tudo e (quase) todos a essa entidade mítica designada por mercados e pelo capital financeiro. Os beneficiários são esses 1% da população que em 2016 possuirão metade da riqueza mundial.
O pensar verdadeiro e de forma filosófica só pode ser feito em alemão ou grego antigo, como dizia o filósofo Martin Heidegger, no seu nazismo e antissemitismo convictos que os “cadernos negros” há anos editados, apenas confirmaram.
Doutorada em física, aceita-se que a chanceler alemã não se interesse demasiado pela complexidade do pensamento das teorias do conhecimento à metalógica, mas tinha a obrigação de saber que, na ascensão do fascismo se encontra austeridade e pobreza, tese que não levanta quaisquer dúvidas e bastará ler o livro do historiador inglês Adam Tooze, ainda sem tradução portuguesa (O salário da destruição – Formação e ruína da economia nazi, 2006).
De igual forma e independentemente das reuniões do Eurogrupo, ontem [11/2] concluídas, não pode ignorar o pedido grego de indemnização pela ocupação alemã do seu território na II Guerra Mundial, nomeadamente sobre valores retirados do banco nacional grego, em 1942, sob a forma de “empréstimo obrigatório” e que uma comissão científica do seu próprio parlamento (Bundestag) avaliou em €8,25 mil milhões, em 2012, de acordo com o semanário “Der Spiegel” (spiegelonline, 2/4 de fevereiro).
Entretanto o Banco Central Europeu (BCE), num dos intervalos do seu aguardado plano de copiar o modelo americano, japonês ou inglês de injeção de liquidez nos mercados, anunciou que iria deixar de aceitar, como colateral, a dívida helénica, quando os gregos fizessem operações de financiamento. Com o aplauso declarado do ministro das finanças alemão e do jovem primeiro-ministro português, o argumento era de que violava as convicções e tratados europeus e que nunca tinha sido feito antes , afirmação que é uma rotunda mentira.
Basta recordar – o espaço não me permite entrar em detalhes deliciosos – que o BCE teve de engolir, em março de 2013, um conjunto de obrigações emitidas pelo estado irlandês no valor “insignificante” de €34 mil milhões, com uma maturidade a 36 anos e um juro médio inferior a 3%, num processo que se inicia com a falência de dois dos principais bancos privados, processo deliberadamente ignorado pelos nossos delegados governamentais nas negociações com a tróica.
Para quem gostar de trabalhar a informação ou, simplesmente, pretender ser um cidadão informado, situação cada vez mais complexa, as revelações contidas no “SwissLeaks”, relativas ao banco HSBC e à sua filial em Genebra, incidindo sobre monumentais fugas ao fisco, num imparável sistema mundial de agiotagem e no período compreendido entre novembro de 2006 e março do ano seguinte, atingem os €180 mil milhões, distribuídos por cerca de cem mil clientes em vinte mil sociedades offshore.
No mesmo dia em que foram divulgadas as investigações coordenadas pelo jornal francês “Le Monde” com a colaboração de mais 145 jornalistas de 45 países – Portugal mais uma vez ausente, o que se justifica por ser um paraíso natural – foi revelado que os acionistas das quarenta empresas da bolsa de Paris receberam €65 mil milhões, só em dividendos.
Tem razão o ministro das finanças grego Varoufakis em comparar este sistema ao temível monstro grego Minotauro, com corpo de homem e cabeça de touro.
Mas se um dia me esquecer de tudo, espero envelhecer tomando café em Creta com o Minotauro, sob o olhar de deuses sem vergonha – já escrevia Jorge de Sena (Poesias III). E, está quase tudo dito.
(*) João Marques, diplomado em Ciências da Comunicação

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