domingo, 7 de janeiro de 2018

DIREITOS HUMANOS, UMA LUTA QUE NÃO PODE ABRANDAR



O texto seguinte constitui a transcrição de um artigo de opinião assinado por Pedro Neto, Director-executivo da Amnistia Internacional Portugal no “Expresso” de ontem que alerta: “2018 tem de ser o ano em que tudo muda e se valorizam os direitos humanos”. Vindo de quem vem, este desejo tem uma força especial mas, por si só, pode esbarrar com a indiferença dos mais poderosos deste mundo, para quem, falar em “direitos humanos” constitui apenas uma arma de arremesso político a usar no momento mais conveniente e nunca de forma absoluta, doa a quem doer.
De qualquer maneira, o prestígio que já ganhou a Amnistia Internacional confere-lhe uma energia que não pode ser desperdiçada num momento em que por todo o mundo os direitos humanos são feitos tábua rasa todos os dias.
Pela (ir)responsabilidade de uns — muito poucos, com muito poder — a humanidade recuou nos valores que a alicerçam e deu espaço a interesses particulares e não ao bem comum. Retrocedemos em direitos humanos.
A estratégia foi simples: ouvimos a retórica do medo, do ódio e da divisão cavalgar nos microfones de alguns líderes políticos, usando narrativas de rancor para generalizar e distorcer a complexidade dos desafios da sociedade global que se quer diversa e inclusiva, onde todos temos lugar, sem exceção.
Posições extremadas ganharam terreno na discriminação, na desresponsabilização ambiental e, finalmente, na perseguição a todas as pessoas que afrontam estes discursos e os abusos que querem legitimar.
Nesse gritar de ódios, os arautos apresentam-se como heróis que vão fechar fronteiras e proteger as pessoas de todo o mal que há no mundo — e que dizem ser sempre culpa dos outros. A esta fórmula juntou-se o silêncio face à discriminação racial, de género, de religião e outras — ou até mesmo a sua apologia, que encoraja atos de violência e perseguição. Assim, tornam-se egocêntricas as sociedades.
Continuámos a ver milhões de refugiados e migrantes em fuga e sem acolhimento digno, de Myanmar à Líbia, à Síria, Iémen ou nos territórios palestinianos ocupados. A lista continuaria. Pessoas que fogem de guerras, de perseguição e de miséria.
A narrativa do ódio a todos os “outros” assenta numa ilusão de autossuficiência, como se não precisássemos de mais nada ou ninguém para viver.
Basta parar para pensar. Assim que abrimos uma torneira de água, tanto que devemos a tantas pessoas e ao nosso planeta. O que foi um problema do futuro, é evidente e do presente. Os fenómenos climáticos que o mundo sofreu, já após o Acordo de Paris, relembram a urgência de uma resposta às alterações do clima e alertam para os efeitos de destruição na vida das pessoas: casas, comunidades e formas de sustento ameaçadas. Esta é uma questão de direitos humanos inadiável.
Temperaturas recorde na Ásia e no Ártico; secas graves no Brasil e na África meridional; a destruição da Grande Barreira de Coral. De novo a lista continuaria, sem esquecer que também nós, em Portugal, sentimos de forma evidente as alterações do clima e o rasto da sua destruição. Da subida das temperaturas ao aumento dos níveis do mar, as alterações climáticas exacerbam causas de guerra como a competição pelo domínio dos recursos naturais. O lucro a todo o custo.
Se as emissões de carbono não reduzirem, e rápido, 600 milhões de pessoas serão confrontadas com desastres naturais, secas e fome, estima a ONU.
Em momentos de acelerada mudança temos de agir com urgência, com paixão e com coragem. A proteção dos defensores de direitos humanos que põem a vida em risco por estas causas em tantos lugares do mundo é por isso prioridade. Em 2016, foram mortos 281 defensores de direitos humanos, quase o dobro do ano anterior. A violência física, as tentativas de descredibilização e de difamação são cada vez mais graves e frequentes, e sempre com o ensejo de silenciar quem se pronuncia contra uma injustiça ou confronta interesses poderosos.
2018 tem de ser o ano em que tudo muda, em que os Estados valorizam os defensores de direitos humanos, em que responsabilizam quem os ataca e previnem que mais sofram. 2018 tem de ser o ano da multiplicação de vozes em defesa da justiça, da dignidade e dos direitos humanos de todas as pessoas. Tem de ser o ano de fazer valer a esperança. A esperança sobre o medo!

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